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Doença de Descompressão – Parte 1

Por Paulo Franco em Revista de Marinha n.º 977 (Março e Abril de 2014)

 

Pretende-se com esta crónica iniciar uma série de publicações relacionados com as mais significativas patologias associadas ao mergulho e actividades subaquáticas e, para abrir, escolhi a mais carismática e abordada das patologias relacionadas ao mergulho com equipamento de respiração autónomo, a Doença de Descompressão (DD).

Quando sujeitamos o nosso corpo a pressões superiores à atmosférica, os gases contidos na mistura respiratória que utilizamos dissolvem-se nos nossos tecidos segundo a “Lei de Henry”, que postula que os gases se dissolvem nos líquidos que com eles se encontram em contacto até que as Pressões Parciais (Pp) desses no interior e exterior do líquido se equilibrem. Sendo que o Oxigénio é metabolizado pelo nosso organismo, este não apresenta preocupação no que diz respeito à sua permanência nos nossos tecidos (pelo menos no âmbito a que nos referimos neste artigo) no entanto os restantes gases, nomeadamente o Azoto e/ou o Hélio, conhecidos como gases inertes por não serem utilizados nos nossos processos metabólicos, vão entrar e sair do nosso corpo em função da pressão a que estamos sujeitos e ao tempo de permanência a essa mesma pressão. Esta dissolução é progressiva e variável de tecido para tecido mas, no seu conjunto, o corpo não absorve todos os gases inertes para que as Pp nos tecidos estejam equilibradas com as do gás respirado para determinada profundidade durante o período normal de um mergulho com equipamento de respiração autónoma.

Atualmente existe uma vasta gama e variedade de computadores disponíveis, adaptando-se a todos os tipos de mergulhos, do recreativo ao técnico mais radical

Fig. 1 - Representação gráfica da “Lei de Henry”. (Fonte: http://ch302.cm.utexas.edu/physEQ/solutions/selector.php?name=henrys-law)

A absorção não representa em si um problema para o mergulhador mas, após a permanência em profundidade, o regresso à superfície sim. Com a redução da pressão ambiente e consequentemente das Pp dos gases respirados, os tecidos corporais passam a ter tensões de gases dissolvidos superiores às externas, pelo que o movimento dos gases será no sentido de abandonar os tecidos e esse processo pode representar um perigo para o mergulhador. A saída dos gases inertes dos tecidos, se não for controlada, pode levar à formação de bolhas inter e extra vasculares que podem interferir na normal dinâmica de fluidos e funcionamento dos órgãos do nosso organismo ocorrendo a DD.

O controlo que pode ser feito pelo mergulhador no sentido de minimizar o risco de ocorrência desta patologia refere-se, principalmente, ao respeito pelos tempos máximos de permanência as diversas profundidades que não requeiram obrigações descompressivas (ditados normalmente por tabelas de descompressão ou computadores de mergulho), caso sejam ultrapassados esses limites (de evitar sempre que possível) o cumprimento escrupuloso dessas obrigações, habitualmente denominadas paragens de descompressão e, não menos importante, o respeito pela velocidade de subida que, na maioria das tabelas actuais, não deve ser superior a 10 metros por minuto.

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Fig. 2 - Tabela de tempos limites sem descompressão (extraída da Tabela de Mergulho Recreativo da Scuba Schools International - SSI). (Fonte: Scuba Schools International - http://www.divessi.com/)

Naturalmente, os gases inertes têm e vão abandonar o nosso organismo, mas cumprindo com os procedimentos acima indicados, vão manter-se em solução ou formar bolhas de muito pequena dimensão (conhecidas como microbolhas ou bolhas silenciosas) que vão ser eliminadas através do filtro pulmonar durante o processo respiratório, com riscos mínimos de ocorrência de DD.

A DD pode surgir de inúmeras formas e ter graus de gravidade muito diversos, dependendo naturalmente de resultar de maiores ou menores violações dos procedimentos de segurança, e dos locais onde as referidas bolhas se vão formar em cada um dos casos, sendo que os sinais e sintomas podem ser diversos e nem sempre muito evidentes.

Descrito genericamente o mecanismo de ocorrência da DD, abordaremos na próxima crónica as formas mais comuns desta patologia e quais os sinais e sintomas associados à sua manifestação. Posteriormente iremos abordar qual o primeiro socorro na abordagem a um acidentado de mergulho com DD.

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 Fig. 2 - Mergulhadores a efectuarem paragem de segurança no final de um mergulho recreativo (sem descompressão) de forma a aumentarem a segurança no que diz respeito ao risco de ocorrência de DD. (Fonte: Scuba Schools International http://www.divessi.com/)

 

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